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Com que roupa eu, mulher, vou?

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Com muita frequência eu escuto a pergunta “mas tu vai de saia?” quando digo que estou indo de bicicleta, independente do destino. Eu gosto de usar saias e vestidos no meu dia a dia. Raramente uso uma calça e, se é assim que eu me visto todos os dias, é assim que eu saio, seja de bicicleta ou de carro. Outra pergunta que segue a da saia é se eu uso short por baixo da saia/vestido. Não, não uso. E já teve gente (homem) que tentou me convencer que era melhor para mim usar um short por baixo, mas ele provavelmente só usou saia para ir às Virgens de Tambaú…

Fui procurar um pouco na internet sobre mulheres+roupas+bicicletas antes de escrever esse post, e não é que me deparei com uma reportagem onde falava de mulheres ciclistas que fizeram mudanças significativas no guarda-roupa para se adaptar ao novo modal de transporte! A matéria falava em usar shorts por baixo de saias, dicas de como prender a saia e também em cores de roupas*. E eu pensando “pra que isso tudo? que burocracia!”. Mas vamos lá tentar destrinchar essa questão da roupa que, na minha opinião, envolve três questões principais: 1) a cultura de que bicicleta é para lazer; 2) os modelos de bicicleta desenvolvidos no Brasil; e, 3) nosso clima.

Ainda é predominante, principalmente para as classes média e alta, o fato de que a bicicleta é apenas uma forma de lazer. No Brasil, por exemplo, os grupos de pedal têm crescido enormemente nos últimos anos. Então é comum para uma parcela da população levar a bicicleta no carro para um lugar seguro e daí pedalar. Essa relação da bicicleta como lazer fortalece a ideia de que ir de bicicleta necessita de uma lycra, mas isso é apenas um mito. Tanto que quando percebemos a parcela da população que usa a bicicleta no cotidiano como meio de transporte, eles não usam roupa específica para ciclista.

Outra questão que também está associada ao fato da bicicleta ser considerada mais como um lazer que como o transporte é os tipos de bicicleta desenvolvidas no Brasil. Há poucos modelos de bicicleta urbanas desenvolvidos no Brasil, que permitem um pedalar mais ereto, menos focado na eficiência e mais no conforto, tanto em relação à vestimenta quanto em relação à visibilidade do trânsito. Essas bicicletas urbanas têm partes que são essenciais para quem usa no dia a dia como protetor de corrente, pára-lamas, bagageiro ou cestinha. Essas características ajudam tanto a proteger a roupa de óleo e lama quanto a levar os pertences. Mesmo com poucos modelos desenvolvidos, a Monark Barra Circular ainda é uma das bicicletas mais vendidas no Brasil. Modelos femininos equivalentes mais populares são a Tropical da Monark, a Poti da Caloi, as antigas Brisa e Ceci. No entanto essas não têm marcha… existem outros modelos mais recentes com um maior aparato tecnológico que ajudam naquela ladeira nada amiga, como a Urban da Tito, as bicicletas Novelo entre outras. No entanto, ainda estamos longe de ter uma adaptação boa das bicicleta a diversos usos, um exemplo comparativo é o da Holanda, onde é comum modelos de bicicleta femininos terem um protetor na parte traseira para que a saia não prenda na roda.

Por último, a questão do clima. Dependendo da profissão, ir de bicicleta no nosso clima nordestino requer algum planejamento a mais. Essa realidade serve para advogadas e advogados, por exemplo, que precisam usar terno ou saias justas (que dificultam o pedalar). Nesses casos, não é que não dê para ir de bicicleta, mas é preciso trocar de roupa. Sendo assim, vestiários nos locais de trabalho são essenciais**. Mas isso independe de ser mulher. No entanto, tenho amigas que colocam a questão do tomar banho no trabalho uma barreira maior que para um homem, por conta de cremes, maquiagem ou não sei bem mais o quê. No último trabalho que eu precisava tomar banho (porque era longe e eu chegava bem suada), a única coisa que mudava na minha rotina era a água fria, já que no trabalho não tinha chuveiro elétrico. Os produtos de higiene e maquiagem que eu precisava usar ficavam numa linda necessaire no trabalho. Fica a dúvida se não é mais uma justificativa do que realmente um problema.

Como pode ser percebido, muitas dessas questões estão relacionadas com o fato de termos uma cultura pouco associada ao uso da bicicleta como meio de transporte. Se compararmos com lugares onde há uma cultura estabelecida sobre o uso da bicicleta, não há essa questão de haver roupa específica para ir de bicicleta. É comum na Holanda ver mulheres em suas bicicletas usando saias de todos os tamanhos e modelos, salto-alto, meia-calça fina – tudo que as pessoas podem achar que não combina com bicicleta. O que precisamos realmente é melhorar nossa relação com esse modal tão incrível, se permitir, buscar a forma mais confortável e prática para ir de bicicleta.

*Eu particularmente não concordo que o ciclista tenha que usar roupas claras, o ciclista pode ficar visível com luzes, refletores e a forma de se comportar no trânsito. A ideia de que o ciclista tem que se vestir de determinada forma corrobora com o pressuposto de que a segurança do ciclista é de responsabilidade dele e não dos condutores de veículos motorizados;

**Muitas vezes não há vestiários/duchas disponíveis nos locais de trabalho. Às vezes tem, mas são disponibilizados apenas para o pessoal da limpeza, como é o caso das universidades públicas. Entretanto, uma simples conversa pode facilitar o acesso. De qualquer forma, sou a favor de políticas públicas que incentivem a instalação de vestiários em locais de trabalho.

3 Comentários

3 Comentários

  1. Laerte Ramos

    3 de agosto de 2016 at 04:39

    Parabéns!! Sensatas observações. Precisamos dá um passo adiante nos libertar de certos conceitos ou pre-conceitos, principalmente nesta nossa cidade.

  2. Fernando Van Woensel

    3 de agosto de 2016 at 16:20

    Tem também pros homens que precisam se deslocar de calça um “clip” que prende pra não sujar na corrente. Eu uso um desses quando preciso, mas só em uma perna (que é a que pega do lado da corrente). Minha bike é uma MTB, não é “urbana”, então não tem protetor :)

  3. Aida Pontes

    4 de agosto de 2016 at 09:53

    Obrigada Laerte! João Pessoa ainda tem sim muito o que avançar em termos de cultura cicloviária, mas aos poucos vamos conseguindo.

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