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Histórias e causos

Uma experiência cicloviajante e cicloativista durante a Conferência Livre de Mobilidade do Recife

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Sabendo que nos dias 9 e 10 de julho seria realizada a Conferência Livre de Mobilidade do Recife (Colmob.RE), pensei: por que não fazer uma pequena viagem de bicicleta? Afinal, de João Pessoa para Recife são apenas 130km. Empreendi todos os esforços na preparação de uma viagem que durante seu percurso se converteria em uma viagem intermodal – sim, pois no trajeto encontrei outro colega cicloativista, que quando não está pedalando sua bicicleta cargueira, conduz uma Kombi. Assim, a viagem se tornou intermodal, pois foi realizada em duas modalidades de transporte: minha bicicleta e o veículo motorizado (Kombi) do meu amigo Tiê Pordeus.

Coincidências à parte,  pensei que aquele seria um bom jeito de começar minha participação numa conferência sobre mobilidade, entendendo que os meios de transporte podem se conectar e oferecer às pessoas uma experiência mais ampla nas cidades, aproveitando as potencialidades de cada tipo de transporte.

Deixando a Kombi e a possibilidade de um carona no retorno que não quis recusar, segui pela Av. Caxangá, uma das principais de Recife, em minha bicicleta. Segui percebendo grandes diferenças nos modais de transporte público com relação aos de João Pessoa, pois incluíam BRT, metrô e ônibus. Não parou por aí o meu estranhamento: percebi que o relevo é bem mais plano, possibilitando maior adesão ao uso da bicicleta.

Seguindo pela Caxangá, observei o sotaque diferente das pessoas quando eu pedia informações, as ruas mais largas e os rios que atravessam a cidade em vários pontos. Depois descobri que eles foram um dos principais meios por onde a população se movia e a cidade crescia. Meu caminho seguia para as margens do Rio Capibaribe. “Lá onde o mar bebe o Capibaribe” (na voz de Lenine), fui acolhido por uma cicloativista – Valéria Pires – que participa da organização do Bike Anjo na cidade. Esse projeto se propõem a ajudar pessoas que querem incluir a bicicleta nas suas vidas, desde aquelas que nunca conseguiram se equilibrar em cima da magrela até aquelas que só precisam de um acompanhamento no trânsito e também funciona aqui em João Pessoa.

Neste mesmo dia aconteceria uma Bicicletada em homenagem a Detinha Son, uma cicloativista capixaba recentemente falecida, que viveu em luta pelo direito à cidade e sempre acreditou no poder transformador da bicicleta. Segui, então, pelas ruas daquela cidade que se desvelava para mim, guiado por pessoas que compartilham ideias sobre a influência do uso da bicicleta como Ênio Paipa, Karla Falcão e Valéria Pires. Sob a luz amarela dos postes e branca dos automóveis, fomos até o Marco Zero, onde demos asas à uma faixa: Detinha para sempre. Para nossa surpresa, a pintura não ficou apenas na faixa. Quando a removemos, a mesma mensagem estava gravada no chão.

No segundo dia recebi o acompanhamento de Karla Falcão para a UFRPE, onde seria realizado a Conferência Livre de Mobilidade do Recife (Colmob.RE), ficava à aproximadamente 11km. No trajeto, em qual tentei acompanhar não só as muitas informações que Karla me expunha sobre o momento cicloativista na cidade, mas a velocidade de sua Caloi 10, pude conhecer uma das maiores ciclovias de Recife. Ironicamente ela tem apenas 5Km, com a maior parte de seu percurso localizado na Estrada do Arraial. Descobri também que em 2012 a mesma ciclovia teve parte do seu trecho ameaçado de ser apagado para dar lugar a três faixas de circulação para veículos motorizados. Porém, com a mobilização de ciclistas, a “obra” foi cancelada. Vitória para os ciclistas que perceberam há muito que criar mais vias só aumenta os congestionamentos.

Durante a conferência em si, presenciei o diálogo de várias organizações da cidade como pedestres, deficientes físicos, motoristas (rodoviários) e ciclistas. Envolvidos em um debate sobre a cidade, todos foram percebendo o grau de desumanidade ao qual chegamos quando nos propomos ao simples ato de nos movermos pela cidade. Pareceu-me consenso a busca por um espaço que privilegie seus habitantes e não os veículos individuais motorizados, invertendo a política até então aplicada no Brasil, onde milhões são investidos na modalidades através de transportes que contemplam uma minoria da população. Tive acesso a dados que relacionam renda, mobilidade e tipo de transporte utilizado (pesquisa origem-destino) que, apesar de extremamente defasados, puderam dar um norte das desigualdades construídas, ficando patente que a cidade não é igual para todos.

A cicloviagem não estaria completa sem que eu levasse na bagagem o conhecimento e a experiência trocada com cicloativistas, pesquisadores e toda uma cidade, me despertando ainda mais para uma vontade de lutar por espaços democráticos e humanizados, que, de fato, conectem as pessoas e não as afastem. O trânsito pode ser esse espaço!

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Recife me impressionou com suas pontes. Na foto, estou na Ponte de Ferro sobre o Rio Capibaribe, que liga a Rua Nova, no bairro de Santo Antônio, à Rua da Imperatriz Teresa Cristina, no bairro da Boa Vista. Aos domingos, a ponte é fechada ao trânsito de veículos motorizados.

 

Cicloativista Karla Falcão e sua Caloi 10, durante a concentração da Bicicletada. No dia seguinte ela me acompanharia até a UFRPE.

Cicloativista Karla Falcão e sua Caloi 10, durante a concentração da Bicicletada. No dia seguinte ela me acompanharia até a UFRPE.

 

Durante a Bicicletada em homenagem à Detinha Son, tive uma das minhas primeiras experiências no trânsito de Recife e pude perceber certa tensão gerada pelo incômodo dos veículos motorizados diante da presença de ciclistas nas ruas. Em um grupo de aproximadamente 20 ciclistas, seguimos da Praça do Derby ao Marco Zero.

Durante a Bicicletada em homenagem à Detinha Son, tive uma das minhas primeiras experiências no trânsito de Recife e pude perceber certa tensão gerada pelo incômodo dos veículos motorizados diante da presença de ciclistas nas ruas. Em um grupo de aproximadamente 20 ciclistas, seguimos da Praça do Derby ao Marco Zero.

 

Pintura de faixa em homenagem a Detinha Son.

Pintura de faixa em homenagem a Detinha Son.

 

Pintura de faixa em homenagem a Detinha Son.

Pintura de faixa em homenagem a Detinha Son.

 

Detalhe de um das bicicletas durante a pintura da faixa: mais amor, menos motor!

Detalhe de um das bicicletas durante a pintura da faixa: mais amor, menos motor!

 

Faixa pronta para alçar voo: Detinha, para sempre!

Faixa pronta para alçar voo: Detinha, para sempre!

 

Primeiro dia da COLMOB, junto aos amigos de João Pessoa cicloativistas Wendell, Shara, Caio e Perla.

Primeiro dia da COLMOB, junto aos amigos de João Pessoa cicloativistas Wendell, Shara, Caio e Perla.

 

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Com Valéria Pires, na Ponte de Ferro, uma cicloativista “arretada” que participa da organização do Bike Anjo em Recife.

 

Nos domingos, várias ciclofaixas são “montadas” em Recife, atendendo uma demanda de lazer. Inclusive, ligando o centro aos bairros, o que teria grande valor em dias úteis para auxiliar quem usa a bicicleta como meio de transporte.

Nos domingos, várias ciclofaixas são “montadas” em Recife, atendendo uma demanda de lazer. Inclusive, ligando o centro aos bairros, o que teria grande valor em dias úteis para auxiliar quem usa a bicicleta como meio de transporte.

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