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A sensação de vulnerabilidade da mulher

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No artigo passado eu mostrei dados de como há menos mulheres do que homens que usam a bicicleta em João Pessoa. Senti vontade de levantar alguns porquês desse dado, baseado na minha percepção e no que escuto de algumas mulheres. Obviamente há resistência em usar a bicicleta para ambos os gêneros. Só que em relação às mulheres, duas causas principais parecem fazer com que elas tenham mais resistência a usar a bicicleta como meio de transporte do que homens: vulnerabilidade e roupa. Neste artigo vou falar da vulnerabilidade, outro artigo tratará da questão da roupa.

Segurança pessoal e segurança viária são dois aspectos que passam muito na cabeça de qualquer pessoa que pense em sair por aí de bicicleta. No entanto, para uma mulher, provavelmente a segurança pessoal pese mais que a viária. A mulher se sente naturalmente menos segura para andar na rua sozinha, não apenas de bicicleta mas também à pé.

Antes de continuar com a tentativa de desconstruir alguns dessas dificuldades imaginadas em relação à bicicleta, é importante pontuar que essa questão não passa apenas pelo gênero, mas também pela classe social. Acredito que as questões que passam na cabeça de uma mulher de classe média a alta é diferente das questões que uma mulher de classe baixa a média enfrenta. Sou uma mulher branca, de classe média e falo a partir desse mundo. Infelizmente, posso aqui apenas supor algumas questões das mulheres de classe baixa a média, mas com muito menos propriedade.

  • Para uma mulher de classe média a alta, acredito que a escolha da bicicleta como meio de transporte seria uma alternativa em relação ao carro. Parece existir a sensação que de carro estamos mais seguras, mas eu acredito que não necessariamente. Alguns pontos importante para se pensar:
    De carro você é mais visada como alguém ‘que tem dinheiro’ do que se você estiver de bicicleta. Nunca um flanelinha me pediu dinheiro no sinal quando estava de bicicleta;
  • De bicicleta você é mais flexível que de carro, podendo mudar de direção, dar meia-volta, entrar de repente em outra rua, se perceber que tem algum perigo se aproximando;
  • De bicicleta você não fica presa no trânsito, hora que podemos ficar mais vulneráveis.
  • O trajeto não é tão mais lento de bicicleta do que de carro, então a gente não fica tanto tempo ‘exposta’ como parece.

Entendo que há uma questão séria de insegurança no Brasil devido a questões econômicas, sociais, urbanísticas, etc. Mas não necessariamente estando de bicicleta uma pessoa, principalmente uma mulher, está mais vulnerável que de carro. Infelizmente a sensação de vulnerabilidade de uma mulher é maior que de homens de uma forma geral. O que acontece nesse caso, ao meu ver, passa também pelo medo do desconhecido, principalmente mulheres de classe média a alta que nos dias de hoje, infelizmente, não estão acostumadas a estarem no espaço público e a rua se torna sim uma desconhecida. Uma boa saída para perder esse medo é ir inicialmente com um amigo ou uma amiga, nem que seja para a padaria ou para a academia, e assim começar a perceber que a  rua provavelmente não é tão insegura quanto parece.

A vulnerabilidade de uma mulher de classe baixa a média brasileira acredito ser mais complicada, pois poucas delas conseguem ter a possibilidade de sensação de segurança que o carro dá. A bicicleta para elas seria uma opção ao ônibus, à caminhada ou ainda ao transporte alternativo, meios de transporte mais usados pelas pessoas de classe mais baixa. Dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) mostram que, nas cidades brasileiras de uma forma geral, 40% das pessoas fazem seus deslocamentos à pé, enquanto que a bicicleta fica ali com seus 5%. Se compararmos com Copenhagen, por exemplo, esses números se invertem, 37% das pessoas usam a bicicleta para ir para o trabalho ou escola, enquanto que apenas 4% fazem esse deslocamento à pé, fruto de um incentivo do município ao uso da bicicleta como meio de transporte e da qualidade do espaço público.

Como não temos dados sobre os pedestres na cidade, eu fico me perguntando se o deslocamento de mulheres que hoje andam à pé ou de ônibus não teria mais qualidade (seriam mais rápidos, seguros e fáceis) se fossem feitos de bicicleta.

É importante reconhecer que mulheres se sentem mais frágeis ao usar a bicicleta e que precisamos também ter  políticas públicas que incluam as mulheres e facilitem que elas usem o espaço público, seja à pé ou de bicicleta. Como dito no artigo anterior, quanto melhor a qualidade do espaço público, mais mulheres usam esse e com isso toda a população da cidade ganha.

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