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Legislação

O comportamento dos ciclistas diante do semáforo vermelho

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O crescimento dos adeptos ao uso da bicicleta como prática esportiva é visivelmente percebido nas ruas de João Pessoa. Basta perambular durante qualquer noite para perceber que há grupos organizados nas principais zonas e bairros da cidade. Com luzes piscantes e roupas típicas, numa performance vistosa e que vem sendo gradualmente apercebida pelos pessoenses, críticas são costumeiramente lançadas sobre eles diante de comportamentos como continuar avançando, em comboio, um semáforo que ficara vermelho.

As críticas costumam ser fortes e denunciam uma clara falta de sensibilidade em alguns cidadãos, que parecem dotados de um pragmatismo forçado. Renunciar alguns segundos em nome de um “bando de desocupados” passou a ser um absurdo digno de revolta. Então, logo surgem frases clichês não aplicáveis de contestação, como “seu direito termina onde o meu começa”.

Diante de uma construção que vem durando décadas, as pessoas passaram a acreditar que as vias são espaços destinados exclusivamente à circulação de automóveis. As cidades inteiras foram planejadas e executadas em função dos motores. A exemplo disso, hoje, ao parar diante de uma faixa de pedestres, é muito comum o motorista sentir-se fazendo um grande favor. O pedestre, por sua vez, atravessa o mais rápido possível, pois assume o papel de intruso. Caso decida caminhar devagar, é provável que ofenda algum “bondoso” motorista.

Essa formação cultural explica parte da insatisfação daqueles que estão atrás do volante, deixando-lhes coléricos diante da ameaça de ter seu espaço minorado. Qualquer gesto, por menor que seja, sugerindo uma diminuição do espaço dos carros ecoa como um cerceamento do direito de quem dirige. Esquece-se de que as ruas foram feitas para as pessoas e não para os carros. Bicicleta, por sua vez, ainda não é percebida como veículo.

A lógica de deslocamento do automóvel se difere, e muito, da lógica da bicicleta. Por esse motivo é tão difícil de ser compreendida por quem não tem o hábito de pedalar nas ruas. Falta o mínimo de sensibilidade e empatia para entender que um comboio de ciclistas, ao seguir ultrapassando um sinal recém-fechado, não o faz para ferir o direito de quem quer que seja, tampouco para fazer prevalecer seus privilégios por estar em massa. A ruptura do grupo significa, para muitos deles, minimização de segurança. Interromper um cruzamento por alguns segundos para assegurar que o grupo de ciclistas continue coeso não pode ser considerado desrespeito ou infração; nem acontece por causa de pressa. Trata-se de um esforço conjunto para garantir que todos permaneçam seguros, principalmente pelos que têm pouca experiência.

Esse tipo de comportamento estende-se aos ciclistas que adotam a bicicleta como transporte na cidade. Artifícios subversivos praticados corriqueiramente por eles, como pedalar sobre calçadas ou trafegar na contramão, acontecem por desprovimento de uma estrutura urbana minimamente adequada e equilibrada. Muitos seguem a mítica de que pedalar na contramão é mais seguro pela possibilidade de enxergar a aproximação dos automóveis. Outros preferem ir sobre as calçadas (mesmo quando elas estão em condições terríveis de nivelamento) no intuito de manterem-se longe do sufocante tráfego de carros nas vias. A mobilidade urbana de João Pessoa ainda não contempla aqueles que se locomovem de bicicleta.

Por causa dessa lógica desleal, podemos afirmar que respeitar as leis de trânsito ainda é perigoso para o ciclista. Quando houver mais espaços garantidos para a bicicleta e, principalmente, uma maior sensação de respeito no trânsito, tornando as ruas mais seguras, os ciclistas seguirão naturalmente as regras de circulação.

Em tempo, é importante destacar que tais comportamentos dos ciclistas não têm correlação alguma com os alarmantes índices de mortes no trânsito. Ainda são os condutores de automóveis – combinados com uma formação desequilibrada de cidade e com nossa incapacidade de promover justiça e igualdade – os grandes responsáveis. É surreal e causa indignação ter que assistir, por várias vezes, órgãos públicos e veículos locais de comunicação atribuindo, imprudentemente, a maior parte desses danos ao comportamento dos pedestres e ciclistas. Responsabilizar a vítima, o lado mais frágil, é espantosamente cruel mas, infelizmente, ainda é o caminho mais fácil.

Se, decididamente, adotássemos uma postura de cuidado extremo para com os pedestres e ciclistas, com certeza não teríamos que ouvir tantos absurdos. Também não seria necessário esse esforço para explicar que qualquer manobra errante dos ciclistas diante das regras de circulação do trânsito não deve ser interpretada como ato condenável. Precisamos, mais do que nunca, de espaços razoavelmente democráticos.

 

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