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Educação e cultura

A revolução dos ciclistas invisíveis

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Sim, é possível viver a cidade de outra forma que não seja pela ótica do caos no trânsito. E é isso que faremos nesse espaço destinado a uma discussão mais específica sobre o uso da bicicleta na cidade de João Pessoa.

Em vez de pensar a cidade como um grande estacionamento, iremos tratar de uma outra sensibilidade no espaço urbano: de como a construção e fortalecimento de uma cultura da bicicleta pode transformar cotidianos. Não é preciso cruzar oceanos para encontrar práticas sustentáveis de deslocamento, quando nós temos total condição de participar ativamente de projetos e políticas públicas que melhoram a qualidade do nosso ‘ir e vir’ na cidade. E isso depende também de como as práticas culturais e a educação para a mobilidade urbana são produzidas pela sociedade e suas instituições.

A intenção não é incentivar um duelo entre carros e bicicletas, acima disso está a necessidade de mostrar os valores distintos em relação ao uso desses dois modais na cidade, como também os impactos gerados pelo modo como nos comportamos a partir do momento em que saímos de nossas casas e nos deparamos com a cidade e todos os seus problemas.

É equivocado associar a mobilidade urbana ao nível de congestionamento que uma cidade pode apresentar. A mobilidade urbana não é uma experiência exclusiva de um grupo particular – como muitos que usam o transporte individual podem pensar. Se as pessoas têm sofrido com o número alarmante de acidentes, poluição ambiental, congestionamentos que tomam muito do nosso tempo, quadros de estresse e cansaço físico, é sinal de que estamos passando por um estado de crise da mobilidade urbana, onde esses efeitos colaterais têm impossibilitado o desenvolvimento de cidades mais justas socialmente.

João Pessoa tem buscado o mesmo caminho ao adotar uma cultura do automóvel que subordina todas as outras formas de deslocamento, colocando sempre a prioridade do pedestre, ciclista e transporte público como secundárias e marginais. Mesmo que as orientações dos planos nacionais e internacionais se posicionem a favor do desestimulo ao transporte motorizado e reforçam a construção de uma nova política que colocam as coisas no seu devido lugar, como a prioridade dos pedestres e o uso do transporte não motorizado – no caso a bicicleta.

O cenário é de uma cidade canteiro de obras especialista em destruir as nossas árvores para construir mais vias, viadutos, edifícios-garagens, como se o problema estivesse centrado no fluxo dos carros. É como se tivéssemos isolando a cidade por partes, privilegiando uma pequena parcela da população que opta por utilizar o seu transporte individual e que pode ter mais acesso a lugares distantes.

Tomar a cidade como se ela fosse uma garagem individual é tão naturalizado quanto deixar o seu carro na calçada por alguns minutinhos como se não fosse ‘ferir ninguém’. A cultura do carro faz com que as pessoas negligenciem a sua responsabilidade com o outro, com a cidade, com os problemas da cidade. Toda a percepção é tida por um ângulo de dentro da sua casa móvel, da sua particularidade e do bem tão desejado e adquirido. Isso não significa tomar como direito ultrapassar os limites dos espaços. As ruas não são feitas para os carros! São feitas para que as pessoas façam o bom uso é preciso também que os gestores públicos vejam a cidade com outros olhos, sob a perspectiva da prioridade dos pedestres, ciclistas e do transporte público. Enquanto tivermos gestores ‘carrocratas’ o discurso de cidade sustentável estará muito longe da prática.

Vislumbramos uma cidade onde o espaço do trânsito não seja uma luta desigual e por isso acreditamos no potencial da bicicleta. Não apenas por um direito de usá-la com segurança, mas o que está em jogo é algo muito mais amplo. A bicicleta (re)surge como contraposição a uma cultura que precariza a condição da mobilidade geral. É um veículo que representa tudo o que vai de encontro à cultura do carro: a não poluição ambiental, a liberação do fluxo do trânsito, a celeridade e capacidade de mobilidade no centro urbano. Bicicleta é saúde, é menos barulho, é qualidade de vida, é economia financeira e ainda fortalece a relação indivíduo-cidade. Não existe lugar ideal para bicicleta.

Toda cidade, em sua maioria, é ideal para ela. Basta vontade política, basta criar estratégias para o fortalecimento da cultura de cidade ciclável e caminhável.

Por uma cidade real nos propomos a pensar, analisar, apresentar e atuar junto a um cenário que tem ganhado força nos últimos anos. O efeito pedalada, como diz antropólogo francês Marc Augè, já acontece há tempos. Basta parar por alguns minutos em qualquer ponto da cidade e esperar para contar dezenas, centenas de ciclistas para lá e para cá. Silenciosos, invisíveis, eles seguem o seu percurso diário e muitos ainda nem sabem que já fazem revolução.

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